Flavio Cruz

Um casamento como nenhum outro

O Armando estava lá na frente da igreja, firme, esperando pela noiva. Bonitão, elegante, olhava para a porta do templo, esperando a futura esposa chegar. Olhando para seu semblante, porém, você jamais poderia saber o que se passava em sua mente. Havia duas forças se confrontando. Uma, que poderíamos chamar “de fundo” estava comparando a vida que ia ter, de casado, com a que tinha tido até então. Como ele se relacionava com a Márcia há muito tempo, era fácil “montar” um quadro mental do futuro “lar”. Não se pode dizer que ele estivesse decepcionado ou apavorado com o futuro próximo, mas certamente não se pode dizer que ele estava vivendo um gozo antecipado. A outra força, que poderíamos chamar de “aparente” , tentava fugir desses pensamentos e olhava a paisagem festiva e solene, a decoração, as faces das pessoas. Foi então, que uma luta surda começou a se travar dentro de sua cabeça. A força “de fundo” estava chamando a consciência exterior para uma conversa, uma discussão sobre o cenário que estava a se descortinar. A outra evitava o confronto porque sabia que não ia ser bom. Mais do que isso, agora era tarde, nada mais poderia ser feito. Por que, então, pensar no que já é quase um fato e que não tem mais jeito? “O que não tem solução, solucionado está”, não é assim que se diz?

A cena era a típica de um casamento.  Amigos, parentes e conhecidos distribuídos ao longo dos bancos. As mulheres, invariavelmente, conversavam baixinho, sussurravam, discretamente, como requeria o lugar. Apontavam coisas e objetos. Com um pouco de imaginação, quase era possível adivinhar-se do que falavam. Os homens, um pouco mais silenciosos, examinavam o teto, os altares laterais, ou simplesmente olhavam para o vazio. Só Deus sabe o que realmente pensavam.

De repente, Armando percebeu  o que todo mundo já tinha percebido. A noiva estava muito, muito, atrasada. Havia mais. Já se podia perceber uma movimentação extra no fundo da igreja. Algumas mensageiras chegavam, outras saíam. Era óbvio que alguma coisa estava no ar. Algumas donzelas estavam nervosas, outras disfarçavam um choro e outras, maldosas, mal podiam conter um ar de sadismo. Os homens, invariavelmente, fingiam que não tinham percebido nada. Uma atmosfera de constrangimento invadiu o sagrado recinto.

Todos já sabiam a essa altura que algo havia ocorrido. O “algo” também todos sabiam o que era, mas não ousavam falar. A noiva teve um ataque de pânico e desistiu na última hora.

Se você  pudesse ler a mente dos presentes, iria encontrar inúmeras e estranhas  “correntes” de pensamento. Um colega de trabalho estava pensando no dinheiro que gastou com o presente. Será que eles iriam devolver? Pedir de volta certamente era impensável. O outro lamentava a viagem que deixou de fazer para estar ali. Um amigo sincero se preocupava com o que iria acontecer com o Armando. E assim por diante. Provas cabais da mesquinharia humana poderiam ser recolhidas ali, se  alguém por acaso duvidasse de sua existência. Eu não vou falar das coisas que se passavam nas cabeças das mulheres, pois alguma leitora poderá pensar que tenho ideias machistas. Posso garantir, entretanto, que iam desde uma dor profunda, sincera, até um “bem feito, ela merece”...

E o noivo, o preocupado Armando, que até agora há pouco estava com aquela monstruosa batalha interior, de repente percebeu que poderia encerrar a disputa mental que estava ocorrendo. Para economizar tempo, vou direto ao ponto: estava tremendamente aliviado, como nunca estivera antes em sua vida. Claro que não poderia mostrar o que sentia por dentro... Por isso, naquele momento sua preocupação passou a ser outra: como coordenar aquela enorme sensação de surpresa e genuína felicidade pela libertação recém adquirida, com uma cara oficial – que teria de fazer para a ocasião – de tristeza e humilhação. Ele bem que tentou.

Se alguém tivesse tirado uma foto de seu rosto naquele exato momento, iria obter uma expressão facial nunca registrada antes. Ganharia fácil do ar misterioso do rosto de Monalisa. Sempre havia a possibilidade de se explicar aquele sorriso contido (Como é possível diante de tal tragédia?), como sendo consequência de um choque traumático. Tantos anos juntos, mais de um ano preparando o casamento e, de repente, os dois abruptamente fugindo de seu destino.

Armando e Márcia provavam mais vez que os corações humanos escondem segredos que nem o mais habilidoso psicólogo consegue penetrar. Ora bolas, quem consegue entender o ser humano?

 

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Published on e-Stories.org on 01/13/2018.

 

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