Flavio Cruz

O menino que fazia filmes

“Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três...”
(João e Maria: Chico Buarque)
 
 
Estávamos no final dos anos 50, quase chegando aos gloriosos 60. O nosso personagem era apenas uma criança e nem 10 anos tinha. Fazia sua lição de casa, algumas tarefas que sua mãe lhe passava, e depois perambulava pelo bairro, nunca muito longe de sua casa. E naquela época nem havia muito motivo para se preocupar, pois tudo era mais seguro. Mas você sabe como são as mães: nunca o filhote pode ir muito longe de casa.
Havia, porém, um lugar especial que o menino sempre visitava. Era o cinema do bairro. Se você não viveu nessa época, eu preciso explicar como funcionavam esses lugares. Era tudo diferente. O velho cinema tinha poltronas de madeira – pelo menos o da nossa história, que se passa em Perus, São Paulo - e você sabe, as “fitas” eram realmente fitas e quebravam de vez em quando. Daí todos ficavam vaiando enquanto o pobre operador não conseguia emendar a dita cuja de volta. Espera angustiante. Também, quem mandava quebrar bem na hora do perigo? Bem na hora que o mocinho ia levar um tiro ou um soco? Talvez fosse isso mesmo, para dar tempo de avisar nosso herói. Naquele tempo não tinha essa história de torcer para o bandido, como certas pessoas que conheço, fazem hoje em dia. Não. Todos, sem exceção, torciam para o mocinho. E não é que o danado sempre levava a melhor! Uma vez houve um herói, num dos seriados, que estava preso numa esteira e essa se movia em direção a uma serra circular. Sua cabeça pendia para fora, bem na direção dos dentes cortantes da lâmina. Claro, o vilão havia feito isso. Bem quando chegou a hora de seu pescoço encostar na serra, o filme parou. Não, não tinha quebrado a fita. Tinha terminado a sequência e era preciso esperar uma semana inteira para saber como ele iria se livrar do perigo. Naquela época não havia seriados de TV, eles aconteciam no cinema do bairro. O menino não se lembra mais qual era o herói, talvez fosse o Flash Gordon. Não importa, o garoto, agora homem crescido, se lembra muito bem que ele se safou. Vamos voltar agora à fita quebrada.
O desastre era sempre antecedido por uma espécie de buraco que se formava na grande tela branca. Como se ela estivesse queimando ou algo assim. O som parava e ouvia-se um ruído característico da película se debatendo nos carretéis do grande projetor. O operador, então, se apressava em cortar as duas pontas para tirar as irregularidades e emendá-las novamente. Um suspiro coletivo de alívio da plateia e lá estávamos de novo em ação. Uma coisa banal, corriqueira, que acontecia várias vezes nas matinês.
Para o menino de nossa história, no entanto, isso era o motivo de algo muito importante que aconteceu na sua meninice e que influenciou toda sua vida. Os pedacinhos do filme que eram cortados, iam para um latão ao lado do prédio. E foi aí que o menino de nossa história descobriu esses “quadrinhos” de filmes. Dá para acreditar que jogavam fora essas preciosidades?
Nosso personagem morava numa casa bem simples mas cheia de salas, lá em cima, no morro. Numa delas havia uma cristaleira. Dentro dela, taças, doceiras, copos antigos, transparentes, desenhados, coloridos: azul, verde, vermelho. A janela tinha duas folhas de madeira, que ao se fecharem, deixavam, talvez por causa de um pequeno defeito de ajuste, uma fresta minúscula. E, por essa, passava um raio de luz. Não um raio de luz qualquer. Ele durava não muito tempo e acontecia numa hora certa, numa hora divina em que o sistema solar se ajustava de tal maneira, geometricamente, num ângulo certo para permitir o fenômeno. Daí então, o menino, sozinho, tinha a sala de projeção mais bonita do planeta. A grande sessão começava com as diversas peças de vidro se movendo, através das mãos infantis, ao longo do raio de luz. Essa, graciosa e, ao mesmo tempo, poderosa, deslumbrante, se multiplicava em formas e cores mil e se espalhava e se espelhava nas paredes brancas da sala. Era um milagre. A luz reverberava, implodia, explodia, resplandecia. Então vinha a segunda parte. Os pequenos pedaços de filmes, que, com cuidado haviam sido recolhidos anteriormente, eram colocados sob a luz. E então o menino via as cenas dos filmes antigos, coloridos ou não. Um rosto, um carro, uma rua, um acontecimento. Inicialmente não se mexiam pois eram apenas um quadro. Mas, de repente, como uma mágica, a imaginação do garoto dava movimento e força para os quadrinhos. As cenas se desenrolavam, os automóveis andavam, os mocinhos e as mocinhas sorriam e cantavam e corriam. E se o bandido viesse para atrapalhar, num dos pedacinhos de fita, coitado dele. Era sumariamente destruído.
O raio de luz finalmente começava a desvanecer. Era o momento do “grand finale”. Os personagens iam se retirando... Voltavam cuidadosamente para a caixa de papelão. Os cristais, solenes, então retornavam para finalizar o evento com um espetáculo de luz. O menino – diretor de cinema – comandava com maestria o show. As luzes se distorciam em curvas, retas, círculos e nuances, juntavam-se novamente e explodiam, mais uma vez, em novos formatos... Até que a composição cósmica dos planetas se desfazia e a luz se esvaía... As peças de vidro voltavam em formação para seus postos na cristaleira da mãe... A escuridão voltava e o menino também, para sua vida normal.
Mas o colorido vibrante, multifacetado e os enredos e histórias daquela “sessão de cinema” continuam até hoje dissipando as nuvens e sombras da mente de adulto daquele que um dia foi um menino... o menino que fazia filmes...

 

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Published on e-Stories.org on 03/26/2015.

 

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