Flavio Cruz

Uma Fábula Moderna

Dicionário Houaiss:
Fábula: substantivo feminino
1 Rubrica: literatura.
curta narrativa, em prosa ou verso,
com personagens animais que agem
 como seres humanos,
 e que ilustra um preceito moral
 
Era uma vez um grande formigueiro. Todo moderno, cheio de entradas e saídas, canais e túneis se entrelaçando com vias suspensas. Muita atividade, muita organização. A Rainha do formigueiro comandava e todos obedeciam. Tinham um orgulho muito grande do sistema que funcionava como um relógio. Era uma beleza ver tudo fluir com charme, precisão, eficiência. Vez ou outra uma formiga se portava mal e era eliminada. Algumas formigas se destacaram tanto que tinham sua própria parte na propriedade e outras muito mais que isso. E tudo ia muito bem no formigueiro.
O tempo passou e alguns formigueiros de fora começaram a provocar e ameaçar a ordem vigente. A Rainha mandou um pelotão de formigas bem treinadas e com bom equipamento e eliminou qualquer nova ameaça contra sua área de domínio. Ficou ainda mais forte, mais rica e mais respeitada. A Rainha aparentemente tratava bem tanto os pequenos habitantes como também os “formigões” que haviam prosperado muito. Dava, porém, puxões de orelhas em todos quando precisavam: pequenos, médios e grandes. O formigueiro cresceu tanto e havia tanto trabalho a ser feito que os habitantes não estavam mais dando conta. Do jeito que estava, iam parar de crescer e isso não podia. Convidaram formiguinhas de fora para ajudar. Muitas vieram. Daí ficou um pouco complicado. Tinham de ficar contando tudo, registrar as formiguinhas de fora, distribuir por todo o formigueiro. Os formigões estavam com pressa e precisavam de mais formiguinhas para ajudar. Passaram a aceitar a pequeninas que vinham de fora, sem passar pelo portão principal, pois como eu disse no começo, havia muitas entradas e saídas. A Rainha ficou sabendo e inicialmente tentou coibir. Mas depois percebeu que era complicado e decidiu fechar os olhos, pois tudo, no final, seria para o bem do formigueiro. Lembrou-se até da frase do Genesis, “... e viu que era bom...”. E para certa surpresa de todos, a ideia se generalizou, a palavra se espalhou pelas localidades vizinhas e muitas novas criaturinhas vieram trabalhar. Era bom para todos, principalmente porque essas danadinhas eram pequeninas, mas trabalhavam mais do que muitas grandonas. E o tempo foi passando e tudo era bom para todos. Até mesmo auxiliares da Rainha, com opiniões bem diversas sobre todos os assuntos, achavam, embora não falassem, que era melhor deixar tudo como está.
 
 Mais tempo se passou e as coisas aos poucos começaram a se complicar. Primeiro foi porque algumas formigas originais estavam se sentindo ameaçadas em seu espaço, no seu jeito de viver. As trabalhadoras visitantes eram muitas e invadiam tudo, gostavam de comer sua própria comida (algumas só faziam isso: iam buscar comida de fora para vender) e isso não parecia certo. Além do mais as novas habitantes não conseguiam se comunicar bem e muitas delas só o faziam entre elas mesmas. Parecia um formigueiro menor dentro de um formigueiro maior. Daí então foi que aconteceu o pior. Algumas auxiliares da Rainha que cuidavam da parte das finanças andaram fazendo umas trapaças ajudadas por outras que não cuidavam do dinheiro mas tinham habilidade em manipular os demais. Quando a rainha percebeu, foi tarde demais. Ela tentou de todas as formas resolver os problemas causados por aquelas formigas gananciosas, mas foi tudo por água abaixo. Quer dizer, nem tanto, pois o formigueiro ainda era muito grande e tinha uma boa infraestrutura. Substituíram a Rainha e muitos auxiliares mas o problema ainda era grande e todos queriam achar os culpados pela situação. Muita gente ficou sem ter o que fazer e portanto sem condições de se sustentar. Foi aí que começaram a acusar as pequenas formiguinhas que continuavam a trabalhar pesado, pois havia algumas coisas duras e penosas que ainda assim precisavam ser feitas.  Falaram que as danadas estavam roubando o serviço dos verdadeiros habitantes e além disso elas não sabiam se comunicar e mais um monte de outras coisas. Começaram a perseguir as coitadinhas, ameaçá-las e até a prendê-las e mandarem-nas embora. Agora está assim, quase todo mundo contra as formiguinhas que trabalharam tanto e ajudaram a aumentar o formigueiro. É preciso dizer que ainda existem algumas “originais” que se lembram de toda a história e apreciam, gostam e protegem as visitantes. São poucas, no entanto.
Coitadas das formiguinhas... Não sei não... Não sei o que vai ser das pobres formiguinhas.

 

All rights belong to its author. It was published on e-Stories.org by demand of Flavio Cruz.
Published on e-Stories.org on 04/11/2015.

 

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