Flavio Cruz

Uma fábula assustadora

Eu não sei que conclusão você vai tirar dessa história, pois eu mesmo tenho dúvidas. Ainda assim vou contar. A pequena chácara, bem lá no interior do país não tinha nada de especial. Uma casa relativamnete simples e um pequeno celeiro ao lado. Um casal e um garoto habitavam o local. Na verdade nem sei se eles têm importância no enredo ou não. Deixo para você essa interpretação, como já foi dito, pois aqui minha obrigação é apenas relatar os fatos, absurdos ou não. O foco dessa pequena fábula é, por estranho que possa parecer, um formigueiro que estava ao lado do celeiro. Nem era grande, tinha no máximo trinta centímetros de diâmetro e uns vinte de altura. Mas você sabe, a verdade está nos detalhes, nas coisas minúsculas. Veja o nosso caso, por exemplo. Quero dizer o caso dos seres humanos, o que somos neste universo infinito? Quase nada. E mesmo assim não é que brincamos de Deus, descrevemos o universo, replicamos a vida, dissertamos sobre a relatividade com absoluta precisão, enfim, você sabe tudo que fazemos. Continuamos pequeninos, um minúsculo grão de pó, como dizem, flutuando ao redor de outro pequeno grão, que é o sol, apesar de tudo que já sabemos. O caso das formigas que lá moravam tem uma certa semelhança com o nosso caso. Vamos aos fatos.
O garoto estava brincando junto ao celeiro quando recebeu uma pequena picada de uma minúscula formiguinha. Não doeu quase nada. Pensou em chorar, mas depois viu que estava sozinho e conteve as lágrimas. Nunca se sabe, talvez precisasse delas mais tarde, para que gastá-las quando ninguém observava? Isso também não é importante. O que realmente devemos levar em consideração é o que aconteceu a seguir. Assim que sentiu a agulhada, ele procurou a culpada. Instantaneamente a liquidou sem remorso nem nada, embora, você deve concordar comigo, o pequeno inseto também é um ser vivo e se você considerar a relatividade das coisas todas, ele é tão importante como a gente. Mas poder é poder. O garoto podia, quis, e matou a coitadinha. Não é assim que nós humanos fazemos às vezes? Daí ele viu que havia muitas outras. Uma fila inteira, apressada, vindo e indo, se cruzando no caminho sem nunca trombar. Organizadas. Trabalhadoras. Levavam suprimentos para ... foi aí que ele viu: o formigueiro.
Eu não sei exatamente o que ele pensou. Posso conjeturar, entretanto, que ele fez uma analogia. Aquele montinho de terra fofa era como se fosse um mundo inteiro, cheio nde vida. Era  a “Terra” dos pequenos seres, embora não girasse, não tivesse oceanos, nada disso. De certa forma ele ficou admirado de ter todo um mundo ali, à sua disposição. Poderia dar um chute, acabar com tudo. Tantas coisas poderia fazer. O que decidiu finalmente foi cobrir o “planeta”, que acabara de descobrir, com uma panela de ferro que havia no celeiro. Assim teria tempo de fazer planos, de pensar.
Agora vamos deixar o pequeno fazendeiro, e agora proprietário de um pequeno formigueiro, ir viver sua vida, cuidar de seus afazeres. Vamos para dentro do pequeno reino para ver o que aconteceu. A primeira coisa que perceberam foi que não havia luz. Depois perceberam que suas irmãzinhas ficaram presas lá fora. Claro, isso é uma questão de ponto de vista. Para as que ficaram fora, as de dentro é que ficaram presas. A verdade é que as de fora ficaram confusas sem um lar para voltar, acabaram de perdendo, acabaram morrendo. Elas poderiam ter sobrevivido. Só não o fizeram porque não podiam ouvir a Rainha dando as instruções.
Lá dentro instalou-se o estado de emergência. A busca por suprimentos foi cancelada temporariamente. A prioridade era achar uma saída. E elas procuraram, como procuraram, as coitadinhas. Não sei se foi o desespero, ou simplesmente azar, mas não achavam um portal para o mundo externo. Às vezes topavam com uma rocha, outras com uma grossa raiz, enfim nada dava certo. O destino, porém, tem seu próprios caminhos: procurando por uma coisa, acharam outra. Por um dos buracos que fizeram para cima, começaram a cair grãos de milhos vindos do celeiro. E quanto mais os tiravam do caminho, mais e mais eles vinham rolando.O que poderia ser motivo para desespero, acabou sendo motivo de alívio. Pelo menos estavam garantidos com respeito à alimentação. A Rainha ordenou que parassem as buscas por uma abertura para o mundo exterior e se concentrassem na organização geral e distribuição dos alimentos. E assim o fizeram. Depois de um certo tempo, no entanto, não havia muito o que fazer além de comer, é claro. A rainha imediatamente sentiu o perigo e mandou que todos fizessem exercícios. Ficavam andando em círculos, queimando as calorias. Ela ordenou também que se organizassem comissões, formadas pelas formigas mais inteligentes, para pensar, pesquisar, descobrir uma solução. Neste processo, elas acabaram evoluindo bastante. Começaram a criar hipóteses, fazer teorias. Algumas se destacaram por sua grande inteligência.
Muito tempo se passou e o saber foi passando de geração para geração. Por outro lado elas foram se esquecendo do que acontecera. O dia maldito em que tudo escureceu, ninguém mais lembrava. Virou uma espécie de historinha que se conta para crianças, uma lenda apenas. O conhecimento, porém, continuou crescendo. Posso arriscar e dizer que se continuassem assim por um tempo razoável, elas poderiam evoluir muito e chegar a um estado de civilização quase humana, se não mais, se considerarmos que, além de tudo, elas são disciplinadas.
De novo o destino. Na Terra maior, na nossa, não aconteceu também aquela catástrofe,  aquele meteoro gigantesco que caiu e matou todos os dinossauros? Acontece. Desgraça acontece, acontece sempre, meu amigo. No caso das formigas começou com uma benção e depois... Imagine uns extraterrestes chegando, iluminando nosso caminho, abrindo fronteiras e depois...Bom, vou direto para a parte final, chega de comparações. Eu havia me esquecido de que não quero me intrometer nessa parte.
Um dia, sem mais nem menos, uma forte luz veio de cima, quase todas as formiguinhas a viram imediatamente. Logo, logo, as outras vieram de dentro das camadas mais internas e também viram aquele foco branco vindo de cima. E havia calor também. Um calor diferente. Para elas um fato que mudava tudo, algo infinitamente importante, mas na verdade era uma coisa bem simples. Havia um novo dono da propriedade. Ao dar uma volta ao redor do celeiro, viu aquela panela e resolveu pegá-la. Era grande e de ferro fundido e poderia ser útil para a esposa preparar carne assada ou polenta. Ficou contente mas não gostou muito do formigueiro que viu debaixo. Havia um monte de bolsinhas brancas o que significava que aquilo ainda ia crescer muito.
Por alguns minutos, foi como um grande milagre. Todas saíram , até a Rainha resolveu dar uma espiada. Imediatamente começaram a fazer uma fila e a andar pelo terreno. Estava no DNA, quero dizer “fazer fila” estava na informação genética delas. Mal tinham começado a explorar este vasto mundo de Deus, quando um líquido amarelo começou a cair em profusão dos céus.Ondas gigantescas se formavam e a maioria delas se viu engolfada no líquido. Algumas se agarravam desesperadas nos pequenos grãos de areia, arbustos, gravetos ou qualquer coisa disponível. Aquele líquido era horrível mas não era pesticida, elas não morreram ali, na hora. Era gasolina, talvez pudessem até sobreviver. Mas se elas conhecessem melhor os humanos, saberiam que quando vem gasolina assim, de graça, é porque vem fogo atrás. Nem tiveram tempo de sofrer. Labaredas enormes consumiram as pobrezinhas. Só se salvaram algumas que ainda não tinham saído e que estavam nos porões mais profundos do formigueiro. Mas o novo fazendeiro não teve dó. Foi lá e com uma pá revirou tudo. Jogou mais gasolina e pôs fogo de novo. Não sobrou nenhuma para contar a história.
Faz sentido uma coisa dessas? Passar por tudo que passaram , sobreviver, evoluir e depois serem eliminadas de forma tão cruel? Justo quando viram uma luz salvadora vindo dos céus?
Eu não acho justo e por isso contei essa história. Alguém tinha de contar. É uma fábula. Como eu disse no começo, tente você achar uma explicação. Para mim não tem. É a coisa mais absurda que já vi.
 

 

All rights belong to its author. It was published on e-Stories.org by demand of Flavio Cruz.
Published on e-Stories.org on 08/02/2015.

 

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