Flavio Cruz

O profeta que perdeu as estribeiras


Ele era um homem de cerca de quarenta anos, barba rala, escura, razoavelmente bem vestido. Chegou na aldeia dirigindo um fusca velho, branco, com uns amassadinhos no capô e na porta. O banco de trás estava lotado com bugigangas que, aparentemente, eram seus pertences pessoais. Parou na venda do seu Antônio, não comprou nada, mas perguntou, educadamente, onde começava o parque estadual, terra do governo. O “seu” Antônio falou para o homem o que ele queria saber. Na hora que o forasteiro estava saindo, o dono da venda arriscou:
-Qual é mesmo sua graça?
O homem olhou para ele com certo espanto pelo atrevimento – talvez fosse impressão do Antônio – e disse que ele era o “enviado”. Quando os outros fofoqueiros vieram perguntar para ele quem era o sujeito, disse com uma certa zombaria: “o enviado”. Todo mundo ria e dizia que o Antônio estava precisando de um aparelho de ouvido igual ao do Euclides.
No dia seguinte, correu a notícia. O recém-chegado tinha montado uma barraca, logo ali no local onde deveria ser construída a entrada do parque que o governo prometera. Ousado aquele sujeito, invadindo assim coisa que pertencia ao Estado. Ficava sentado em frente à sua barraca praticamente o tempo todo. Escrevia e tomava notas em um caderno, consultava ora um livro, ora outro.
Os boatos começaram a se espalhar. Comentários de todos os tipos. Alguns diziam que ele estava começando a ocupação de terras, que um verdadeiro bando viria após ele. Daí seu epíteto de “enviado”. Outros achavam que era alguém importante que havia perdido tudo e que estava ali para se esconder, se isolar. Talvez um fugitivo perigoso, se escondendo da polícia. Simplesmente um louco?
Com o tempo, algumas pessoas começaram a se aproximar dele e conversar. Aí, então, as coisas começaram a ficar mais claras. Aparentemente ele era um tipo de religioso. Dava conselhos e conselhos bons. Falava de perdão, de amor, de conciliação. Ressaltava também a honestidade, o bom caráter. Quando lhe perguntaram, uma vez, se ele era de alguma religião ou se ia fundar uma, negou com veemência. Explicou que aqueles conselhos eram o óbvio, era tudo uma questão de bom senso. Ainda assim, os boatos de que ele era um líder religioso e que estava ali para fundar uma seita ou uma igreja, ficavam cada vez mais fortes.
Depois de algum tempo, a quantidade de frequentadores da barraca do “enviado” passou a ser uma coisa notória. Vinha gente de outras cidades, algumas até de longe. E ele passou a ser chamado de “profeta” por quase todos. Como consequência natural dessa peregrinação, as pessoas começaram a pedir-lhe que curasse enfermidades. Ele se negava a qualquer coisa desse tipo. Falava que, talvez isso fosse possível, mas não através dele, mas sim através da própria pessoa. E havia gente que dizia ter sido curada, que havia seguido a orientação do profeta. E ele, mesmo repetindo a todo momento que não curava, criou a fama de milagreiro. Nas conversas do bar, o “seu” Antônio sempre repetia que o profeta era uma pessoa boa e honesta, mas não queria montar uma religião. Mas, quando o povão acredita em alguma coisa, nem o diabo segura. E fazia o sinal da cruz.
Numa sexta-feira à tarde, encostou um caminhão cheio de caixas, que rapidamente começaram a ser descarregadas pelo motorista e seu ajudante. Atendendo às orientações do profeta, elas iam sendo colocadas dentro e atrás da barraca. Havia muita gente lá, naquele dia. Todo mundo ficou surpreso quando o motorista entregou-lhe uma caixa menor, diferente. Ele abriu-a, tirou de dentro um notebook, abriu-o e o ligou a uma tomada no chão. O fio vinha de longe, de uma casa distante que lhe emprestava energia elétrica. Todo mundo estava embasbacado. Um profeta com computador? Os mais curiosos lhe perguntaram se todas aquelas outras caixas também eram computadores. Ele respondeu que não. Que eram livros. E começou a digitar com velocidade em sua máquina. Todo mundo emudeceu diante daquela cena esdrúxula. Aquilo era um paradoxo metafísico. Quando o sol se pôs, entretanto, o profeta encerrou o espetáculo e pediu que todos fossem para casa.
Naquela noite, muita gente resolveu ficar por ali, na cidade. Tinha sido um dia especial. Quem morava lá, resolveu ficar acordado. Havia uma espécie de premonição no ar. Algo especial estava para acontecer? Faltavam alguns minutos para a meia-noite quando veio a resposta. Uma enorme bola, brilhante, que cegava a vista, apareceu do lado do parque. Estava óbvio que ela estava bem em cima da barraca do profeta. Algumas pessoas gritavam, outras faziam preces, outras riam tresloucadas.  Após algum tempo, ninguém sabe quanto, tudo parou. O povo inteiro desmaiou e todo mundo só acordou de manhã, com o nascer do sol.
Em minutos, todos estavam se dirigindo para a barraca sagrada. Era assim que todos a estavam chamando, agora. O “enviado” estava esperando por eles. Fez sinal para se acalmarem. Falou então que tinha novidades. Tinha recebido uma espécie de “código de conduta” de alguém, lá de cima. Explicou que não tinha nada de especial, era simplesmente o óbvio, o bom senso. Ser honesto, respeitar os outros, respeitar a comunidade, ajudar a quem precisasse, enfim, aquilo que todo mundo já sabia. Mas era importante, ele disse, pois o que é mais esquecido hoje em dia, é justamente o óbvio. Sem mais palavras, ordenou que todos ficassem em fila. Aconteceu, então algo surpreendente. Quando a pessoa chegava frente a frente com o “profeta”, ele perguntava se a mesma tinha computador ou não. Para quem tinha, ele dava um CD, para quem não tinha, ele dava um folheto. Estava explicado o que havia dentro do caminhão, que havia chegado no dia anterior.
As pessoas começaram a ler o que estava escrito nas páginas daquele livrinho. Quem tinha computador, colocou o disco para ser lido. Realmente, nada de especial. Era aquilo que se esperava de um bom cristão ou de alguém de qualquer religião que se preze. Ainda assim, as pessoas estavam maravilhadas com o evento e todo mundo prometia aos outros e a si mesmos, cumprir tudo tim-tim por tim-tim.
Com o tempo, muitas pessoas voltavam para a barraca sagrada. Queriam tirar dúvidas. O profeta respondia com perguntas ou mandava a pessoa olhar na página tal. Estava claro o que ele queria dizer. Não havia necessidade de profeta. Todos os ensinamentos, além de evidentes em si mesmos, estavam muito bem explicados nos discos ou nos folhetos. Mas o povão precisava era do contato com alguém de autoridade, precisava de reforço. Além disso, acontecia muito - e o profeta não gostava nada disso – as pessoas queriam milagres, eventos especiais. Ele estava cansado de explicar que, se milagre houvesse, deveria partir da própria pessoa. Ele não sabia fazer milagres e achava que ninguém sabia. Muita gente queria deixar contribuições. Ele, rapidamente, recusava todas.
O tempo foi passando e, ao invés de as pessoas se acostumarem com essa nova moda de ser profeta, elas insistiam na moda antiga. Queriam explicações divinas, queriam milagres, queriam dar contribuições. Talvez quisessem “comprar” alguma graça, conforme sugeriu o profeta. E ele sempre repetia que não queria vender nada.
Mas quem segura o povo? O fanatismo foi aumentando, aumentando. O grande líder, então, resolveu dar um basta. Convocou todos para uma grande reunião dali a dois domingos. De manhã, às onze, que era para todo mundo ter tempo de chegar.
No dia acertado, havia lá gente a perder de vista. Todo mundo estava esperando algum grande comunicado, embora o bom senso dissesse o contrário: ele queria parar com aquele fanatismo. Isto estava bastante claro através de todos seus atos e palavras anteriores.
Dessa vez, ele usou um alto-falante. Falou de novo o que sempre falava, Que ele não era santo, nem profeta, nem fazia milagres. Ele apenas usava sua vida para mostrar aos outros que se deve viver com dignidade, com respeito. O povo, entretanto, parecia, estar ouvindo outra pessoa. Eles deliravam, aplaudiam, choravam, clamavam. O profeta já estava ficando irritado, mas se conteve. Afinal, ele tinha de ser paciente com a ignorância, segundo seus próprios ensinamentos. Avisou que aquilo não podia continuar. Que ele iria partir e, quem tivesse boa fé e bom senso, iria seguir as regras de um bom cidadão. Viver em harmonia. Foi então que, uma mulher na primeira fileira começou a gritar:
-Não nos abandone, mestre! Sem ti, não somos nada. Não nos deixe em perdição. Depois passou a falar palavras sem sentido e quase todos passaram a segui-la. Ajoelhavam-se e imploravam para o profeta não partir.
Ele foi ficando cada vez mais vermelho e irritado. Sua voz estava abafada pela multidão. Aconteceu, então, o que de mais improvável poderia acontecer. Ele pegou o notebook e bateu-com violência na cabeça da fiel. Tinha, finalmente, perdido o controle. A mulher desmaiou e podia se ver o sangue correr de sua testa. O profeta, então chutou, literalmente, o pau da barraca e começou a andar para um pequeno bosque, na direção oposta à multidão. Foi indo, indo, e sumiu no meio da mata. Nunca mais voltou, nunca mais se ouviu falar do profeta.
No dia seguinte, a mulher que tinha sido agredida, estava boa. Nem marca do golpe havia. E ela parecia iluminada. Olhava com aqueles olhos estatelados para o nada ou, talvez, para o infinito. A notícia se espalhou. O profeta tinha sido arrebatado para os céus, mas não antes de fazer um milagre. E as pessoas começaram a visitar a vítima e esta se sentia escolhida. Talvez alguém fizesse uma religião a partir disso.
E foram inúmeras as versões do incidente. Alguns diziam que o computador saltou da mão do profeta no momento em que ele foi arrebatado. Há outras versões tão esquisitas, que nem ouso contar. Na verdade, agora estou até duvidando da grande bola de luz que pairou sobre a barraca, talvez tinha sido imaginação. Um helicóptero do governo para monitorar a situação? Quanto ao notebook sagrado, ninguém mais o viu. Uma versão é que alguém o tenho guardado como relíquia. A outra, menos encorajadora, é que alguém o tenha surripiado mesmo.
Foi assim que o profeta do notebook perdeu as estribeiras.
 

 

 

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Published on e-Stories.org on 02/02/2016.

 

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