Flavio Cruz

O Professor de Geografia


 
Renato Stempniewski e Eli Piccolo. Se você conhece estes dois, então, meu amigo, você não é mais tão jovem assim. Sem ofensa. Quando eu estava no antigo “ginasial” eles eram praticamente os únicos autores de livros didáticos de geografia. A capa não mudava e tampouco o conteúdo. Ano após ano. Lá estava tudo. Montanhas mais altas: Monte Everest, 8858 metros, K2, 8611 metros e assim ia. Rios mais extensos do mundo: Nilo, 6650 quilômetros, Amazonas, 6400 quilômetros, Mississippi, etc... Descrições extensas e técnicas de sistemas tropicais, subtropicais, a caatinga e o cerrado, bacias hidrográficas e muito mais. População, densidade demográfica, área geográfica, divisão política, tudo, tudinho. Estava tudo escrito e registrado pelo Renato e pelo Eli. O nosso professor, de um daqueles países eslavos, um sobrenome difícil de pronunciar – o nome era impossível – simplesmente lia o livro para nós. Sua aula era ler, contínua e ininterruptamente todos os dados, metragens, quilometragens. Era implacável. Era lento, mas não parava. Tinha um sorriso infantil e ingênuo no rosto redondo. Os cabelos haviam desistido de crescer há muito tempo. Daí tínhamos de decorar tudo, item por item, para poder passar na prova. Naquela geografia não havia porquês, nem causas, nem consequências, nem mesmo interação com o ser humano, só números, puros, incontestes, absolutos. Não me lembro de mais nada. O pouco que sei, aprendi depois de adulto, aqui e ali, consultando.
 Não quero difamar o pobre do professor. Acho que ele nem era professor formado. Ele fazia o que fazia, achava que era certo. Além do mais, não devemos falar mal de quem não está mais presente. Certamente ele já faleceu e, sendo um bom homem, além de padre, está no paraíso. Entretanto, tenho certeza de que lá não está lendo os números do Stempniewski e do Picollo. Lá de cima, ele tem outra visão. Pode ver a graça ao mesmo tempo suave e estupenda da neve que cobre as montanhas, e que têm um tom sutil de azul, quase imperceptível. Pode ver que os rios, de qualquer tamanho, serpenteiam sempre graciosos entre as montanhas e os vales. À s vezes se lançam em quedas loucas, em cascatas e cataratas, só para fazer graça. Que o mar, independentemente da profundidade, na verdade tem tons mil. Que a luz do sol, de dia, reflete em suas águas e cria milhões de pontos luminosos, que mais parecem diamantes. Que, à noite, os raios de luz da lua, refletidos nas ondas, parecem pedras preciosas num fundo de veludo. Que a profundidade dos oceanos enumerada nos livros do escritor era irrelevante perto da riqueza escondida lá no fundo. Que a areia dos desertos, iluminada, de cima parece uma grande placa de ouro. Que, lá do alto, as divisas geográficas não podem ser vistas. É um mundão só, contínuo, belo, multifacetado, colorido... que os homens, bons ou maus, não podem ser vistos lá de cima. A maldade não parece existir, quando você olha de lá.
Não faz mal, professor, nem ligue para meus comentários sobre suas aulas. Desculpe a interrupção, descanse em paz, e aproveite ao máximo essa geografia abstrata aí do céu: sem números, sem estatísticas, sem comprimento, sem altura, sem densidade demográfica, nem coordenadas nem paralelos... Só uma bola azul pairando no infinito...
 

 

 

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Published on e-Stories.org on 04/17/2016.

 

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