Flavio Cruz

Porta do céu

Todo dia eu acabava parando ali, bem em frente àquela casa branca – até o telhado, imaginem – com aquele letreiro azul bem na frente: “Porta do Céu”. Durante aqueles segundos de sinal vermelho, ficava imaginando...  era uma funerária, talvez um consultório de psicologia, ou uma sociedade de auxílio aos mais necessitados? Como saber? Não havia nada mais escrito, só aquela branquidão e as três palavras em azul celeste.
Havia algumas vagas para carros, mas nunca vi nenhum lá. Cheguei a ver pessoas saindo ou entrando, mas era raro. Naquele dia de agosto, o farol demorou mais que o normal para abrir. Foi aí que vi uma moça, vestida de uma túnica alva, me olhando de um jeito diferente quando entrava. Depois fez um gesto com a cabeça como se fosse um convite. Sei lá qual o verdadeiro motivo, o fato é que dei uma guinada no carro e peguei uma das vagas do estacionamento. Aproximei-me da porta e, quando estava pronto para bater, ela se abriu e um rapaz, sorridente, apontou uma poltrona onde deveria me sentar. Branca, é claro. Ele me disse que certamente eu estava me perguntando que lugar era aquele. Quando eu estava para responder, a moça que tinha me feito o sinal com a cabeça entrou na sala e me explicou:
-Aqui é mesmo a porta do céu. Sem metáforas, a porta do céu. A única diferença é que aqui você não precisa morrer para entrar no paraíso. São poucas as pessoas que veem essa casa. Alguém alguma vez disse para você que tinha visto essa casa? Se você perguntar para uma pessoa normal, ela vai dizer que aqui existe um “Burger King”, nada mais.
E não é que eu nunca tinha perguntado para ninguém!  E não é que alguém já tinha me falado de ter comido num “Burger King” por ali? Eu nunca tinha visto um ali perto, mas nunca tive a iniciativa de perguntar. A moça continuou:
-Pois é, esta é a chance de você ir para o paraíso, sem dor, sem morrer. Se você não quiser, não há problema. Você sai daqui, não vai se lembrar de nada e daí só vai ver um simples Burger King no mesmo lugar.
Pensei comigo, que diabos, o que vou fazer? Imediatamente tive consciência do absurdo que tinha feito, ou seja, mencionar o capeta em tal lugar. Ninguém notou. Ou talvez tenham disfarçado.
Pois bem, que mal podia haver naquilo? Não tinha compromisso nesse mundo de Deus, vivia sozinho, estava mesmo cansado da rotina. Sem prestações, até o carro estava pago. Exclamei, então:
-Vamos lá!
E lá eu fui. Puseram-me numa deliciosa cama – toda branca – no quarto ao lado. Fiquei meio zonzo, uma claridade doutro mundo me cegou. Minutos depois acordei em meio a cânticos celestiais. Celestiais mesmo.
E é isso aí. Agora estou aqui, vivo no céu. Infinitamente melhor do que imaginava, nada a reclamar, muito pelo contrário. Faz muito tempo, embora tempo não se conte por aqui.
De vez em quando dou uma passada lá pela casa branca para ajudar. Fico fazendo sinal para as pessoas entrarem, como eu entrei. É muito raro alguém me notar. Acho que a grande maioria das pessoas só vê mesmo é um Burger King todo colorido...

 
 
 

 

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Published on e-Stories.org on 07/31/2016.

 

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