Flavio Cruz

Um céu de abóbora

Era época de eleição na Vila dos Enganos.  Quase todo dia havia comício no palanque montado na praça principal. E daí vieram os debates. Com megafones, os dois candidatos ficavam se insultando. O mais comum era dizer que o outro era mentiroso. O candidato do Partido Conservador, Ronaldo Tromposo era muito agressivo e a candidata do Partido renovador, Cíntia Sorriso, embora mais delicada, era bastante sarcástica. Cada vez que eles se enfrentavam, havia uma novidade, geralmente alguma coisa grosseira, um escândalo.
Naquele domingo ensolarado, sem nuvens, de um azul quase agressivo, de repente o Tromposo soltou a bomba:
-A Dona Sorriso, imaginem, diz que o céu é azul, e, como todos podem verificar, ele é de cor abóbora. Como é possível confiar o destino dos eleitores a uma pessoa que nem sabe a cor do céu?
Inúmeras vaias misturadas a assobios e aplausos. Além disso, logo a seguir todos olharam para o céu. E alguns clamavam, que absurdo, é lógico que é azul! Outros diziam, como alguém pode confundir azul com abóbora? E houve tumulto.
Durante a semana, houve brigas e mais brigas. Meu Deus, o céu sempre foi azul, como ele pode dizer algo assim? Isso diziam os leitores da Cíntia. Faz tanto tempo que o céu virou abóbora e esses idiotas não perceberam, diziam os seguidores de Tromposo.  E a coisa ficou feia. Houve ataques físicos e até alguns atentados.
O assunto trouxe gente de fora. Assim que chegavam, eles ficavam ofuscados pela luz forte vinda de cima. Alguns enxergavam azul, outros enxergavam abóbora. E depois disso, não conseguiam mais sair da cidade.
Finalmente veio um entendido em assuntos políticos e conflitos sociais. Já sabendo do problema, veio munido de óculos especiais. Entrou com calma, olhando para todos os lados e para todos. E o que ele viu foi o seguinte: pessoas andando a esmo, tateando para poder achar as coisas, cambaleando, batendo contra paredes, dando encontrões. Pareciam cegos. O céu? Ah, o céu! Ele estava cinzento de um cinza tão escuro que jamais havia se visto. Parece que fora sempre assim.
O especialista, contemplado que estava com poderes especiais para enfrentar a situação, mandou fazer uma cerca enorme em volta da cidade. Os trabalhadores também estavam munidos de óculos especiais. Assim que foi possível, eles se retiraram da cidade e deixaram os habitantes à própria sorte.
Dizem que até agora cada um vê o céu de sua própria maneira. O que eles não sabem é que atualmente quase ninguém vê mais o azul. Alguns veem o verde, outros o rosa, outros ainda o amarelo e outras tonalidades.
A maioria, entretanto, continua vendo a cor de abóbora.

 

 

All rights belong to its author. It was published on e-Stories.org by demand of Flavio Cruz.
Published on e-Stories.org on 10/19/2016.

 

Comments of our readers (0)


Your opinion:

Our authors and e-Stories.org would like to hear your opinion! But you should comment the Poem/Story and not insult our authors personally!

Please choose

Previous title Next title

Does this Poem/Story violate the law or the e-Stories.org submission rules?
Please let us know!

Author: Changes could be made in our members-area!

More from category"Politics & Society" (Short Stories)

Other works from Flavio Cruz

Did you like it?
Please have a look at:

Amor, absolutamente amor - Flavio Cruz (Love & Romance)
Heaven and Hell - Rainer Tiemann (Humour)