Flavio Cruz

A Santa

A Santa

 

Lola, estatelada, olhava para o teto amarelado de sujeira. Um reflexo vermelho manchava como sangue uma parte do espaço. Era a luz que vinha da santa na parede. A Santa Aparecida, com sua tradicional capa triangular, estava colocada num nicho na parede, bem acima da cabeceira. Lola estava cansada, não tinha forças para se levantar. Queria dar uma espiada na virgem. Queria saber se ela estava brava com o que ela tinha feito. Sexo por dinheiro. Tinha jeito? Como sustentar a filhinha que não tinha pai? Ainda bem que a irmã ajudava a cuidar da Lucinha. Se assim não fosse, como iria ser? A Santa sabia muito bem que o que ela fazia não era por prazer. Pura necessidade. Não podia ser pecado. Já tinha pensado em tirar a imagem de lá quando precisava trabalhar.  Mas e se algum homem se tornasse violento? Como iria se safar? Precisava de proteção.

Pensava tudo isso e o homem ainda estava lá. Estava para sair. Será que tinha deixado o dinheiro em cima da cômoda, conforme combinado? Parecia honesto. Será que era casado? Pobre mulher!

Levantou-se depois de ficar um pouco sentada na beira da cama, deu uma olhada na negra santa e achou que ela não tinha visto nada. Não quis ver. Que se há de fazer? Foi até o móvel, pegou o dinheiro e contou. Bem que podia ser mais. Alguns deixavam mais. Esse último tinha cara de coitado. Precisava deixar essa vida, a menina estava crescendo, logo ia começar a entender as coisas. Não podia.

Lembrou-se da irmã que tinha falado de um pai de santo que dava jeito para tudo. Mas a santa não podia saber. Disso ela não ia gostar, não. Concorrência é coisa séria. Nesse caso era mais traição mesmo. Deu outra espiada na santa para ver se ela estava ouvindo seus pensamentos. Também, por que ela não ajudava? Se tivesse arrumado um bom emprego para ela e algum lugar para deixar a filha, não precisava fazer o que fazia. No fundo a culpa era dela. Ela não é a mãe de Deus?

Estava perdida nos pensamentos quando alguém chamou de fora. Era a Das Dores, a irmã. Abriu a porta, estava ansiosa, aflita. Mas era uma aflição boa.

-Sabe a antiga patroa? Aquela que eu tive de deixar quando me casei com o Zinho? Veio desesperada em casa, queria que trabalhasse de novo pra ela. Uma questão de vida ou morte, paga o dobro, dá comida, pode trazer comida pra casa. Pensei em você. Você quer?

-Claro, minha irmã, claro. Mas, meu Deus, o que faço com a Lucinha? Você não pode ficar com ela todos os dias...

Falei disso também. Pode levar junto. É até bom, faz companhia pra a filha dela, que é da mesma idade. Parece um milagre, não parece?

Das Dores passou o endereço num pedacinho de papel, escrito com uma letra bonita. Começa amanhã de manhã, leva a Lucinha. Tinha de ir embora, pois o Zinho estava para chegar em casa. Deixou a Lucinha com a mãe e partiu.

Assim que que a irmã saiu, ela fechou a porta, abriu a janela para entrar o sol. Mandou a filhinha para a cozinha, pois tinha preparado almoço para ela. Ficou parada em frente da santa e falou:

-Você levou mesmo a sério a história do pai de santo! Para dizer a verdade, eu nunca ia ter coragem de fazer isso com você, você sabe disso! Mas valeu, funcionou!

Foi para o outro cômodo dar comida para a Lucinha. Foi o dia mais feliz da vida da Lola desde o dia do nascimento da menina. E falou com um sorriso largo:

- Essa santa é fogo mesmo! É Aparecida e é do Norte! Eu sabia...

 

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Published on e-Stories.org on 11/23/2020.

 

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